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INTRODUÇÃO AO BUDISMO
Uma visão da doutrina budista através dos textos
Este é um trabalho de seleção e ordenação de textos
de vários autores e mestres budistas por
Karma Tenpa Darghye.

A MIRAGEM DOS PENSAMENTOS

Quando observamos nossa mente, não podemos encontrar o lugar de origem dos nossos pensamentos, nem podemos descobrir o lugar onde eles residem, ou onde desaparecem. É o sinal de que os pensamentos não são "coisas", de que não são reais.

Todavia, enquanto não conhecermos a natureza da mente, apreendemos os pensamentos como coisas verdadeiramente existentes e sofremos com isso.

Conquanto os pensamentos sejam desprovidos de realidade, eles surgem em nossa mente. São os produtos de inumeráveis condicionamentos que engendram sua manifestação. Como esses condicionamentos se formam em nossa mente? Da mesma maneira que nossa atividade diária deixa em nossa mente marcas que reaparecem durante nossos sonhos.

Nossos pensamentos, desprovidos de realidade, são semelhantes às miragens que o calor faz surgir no deserto. Vista de longe, uma miragem parece real. Ela não tem, todavia, nenhuma realidade: não se pode dizer que ela veio de qualquer parte, não se pode dizer que ela resida em qualquer parte, também não se pode dizer que, quando desaparece, ela parte para algum lugar. Entretanto, para desmascarar sua aparência de realidade, é preciso examiná-la, tornar consciência que ela é apenas urna aparência ilusória. O mesmo acontece com os pensamentos: deve-se compreender que eles não são reais. Essa compreensão fará diminuir nossos sofrimentos.

Ver que os pensamentos são desprovidos de existência própria é o que denominamos lhaktong, a "visão superior".

De maneira geral, antes de praticar lhaktong, praticamos inicialmente shine para reduzir a agitação interior. Se abordarmos diretamente lhaktong, corremos o risco de incrementar a produção de pensamentos. É por esse motivo que devemos, em primeiro lugar, estabelecer uma boa base de shine. Todavia, quando sofremos interiormente muito, fazer lhaktong poderá ajudar-nos.

PRÁTICA DE LHAKTONG

Assim como para a prática de shine, encontraremos uma grande ajuda dirigindo inicialmente uma oração ao nosso mestre espiritual que imaginamos presente acima de nossa cabeça, sentado sobre um lótus, muito luminoso. Ao final da oração, ele se funde em nós e pensamos que recebemos sua graça.

Primeiro exercício

Bem à vontade na postura de meditação, começamos por fazer shine, como anteriormente, colocando nossa atenção na expiração. Respiramos de modo natural e consideramos que respiração e mente formam apenas um.

Uma vez que nossa mente está assim colocada sem distração no respirar, perguntamo-nos qual é a cor da respiração da qual sentimos a passagem em nosso corpo, qual é a sua forma, sua dimensão, sua essência. Meditar procedendo a essa análise é lhaktong.

Segundo exercício

Fazemos de início shine tomando como suporte o Budha shakyamuni em nosso coração.

Perguntamo-nos, depois, qual é a natureza desse Budha claramente percebido. É ele feito de tecido como uma thanka? Ou então de argila ou de metal como uma estátua? De onde surgiu? Do interior do nosso corpo, ou do exterior? Enquanto está presente, onde se encontra? Quando desaparece, aonde vai?

DE SHINE [SAMATHA] A LHAKTONG [VIPASSANA]

Para aqueles que sabem meditar como acabamos de ver, é uma experiência muito agradável, como uma espécie de grande espetáculo que acontece. Se, ao contrário, tentamos sem lograr êxito, corremos o risco de que isso seja penoso e fatigante.

Quando damos instruções sobre a meditação, normalmente explicamos de inicio shine e só abordamos lhaktong uma vez adquirida urna certa estabilidade da mente. No Tibet, o mestre procedia sempre assim em duas etapas, para evitar que instruções demasiado apressadas sobre lhaktong conduzissem a um incremento de pensamentos numa mente não preparada. No Ocidente, nem sempre é possível seguir o mesmo princípio, em razão das circunstâncias. As diretivas concernentes às duas abordagens são dadas simultaneamente. Nem o mestre nem o discípulo podem fazer de outro modo. Cabe ao meditador, portanto, ver o que lhe é mais proveitoso. Se sua mente conhece uma certa estabilidade e não é absolutamente arrebatada pelos pensamentos, neste caso você pode fazer lhaktong. Se, ao contrário, você constata muita agitação, é melhor que se aplique a shine.

O que importa é estudar sua própria meditação, ver o que se passa em sua própria mente. Que o mestre dê numerosas exp1icações e que o discípulo passe muito tempo a escutá-las, isso não serve para grande coisa. Sem a própria experiência da meditação, as instruções são estéreis. Mesmo que um mestre e um discípulo permanecessem cem anos juntos, que o mestre explicasse a meditação durante cem anos e que o discípulo ouvisse atentamente durante cem anos, tomasse notas e refletisse, isso não permitiria que nascesse a mínima experiência interior.

O ESTADO EM QUE NADA É ENCONTRADO

Para praticar lhaktong, o procedimento a seguir é, então, antes de tudo, colocar nossa mente num estado de estabilidade, tranqüila. Em seguida, devemos encontrar onde reside essa mente pacificada. Esta ela no exterior de nosso corpo, em seu interior ou entre os dois? Qual é sua forma, qual é seu volume, qual é sua cor? Procedemos inicialmente a essa análise, ao fim da qual não encontramos nem loca1ização, nem forma, nem volume, nem cor. Permanecemos então nesse estado em que nada é encontrado.

Vimos como aplicar esse princípio servindo-nos de três suportes. Devemos compreender, contudo, que Ihaktong não se limita unicamente à análise, mas reside, antes, no fato de permanecer na experiência que se libera quando chegamos ao fim da análise.

Proceder continuamente a um exame não teria muito sentido. Seria o mesmo que procurar, depois, tendo descoberto que não há nada, procurar de novo descobrir uma vez mais que não há nada e assim por diante. Em verdade, procuramos unicamente até a descoberta que não há nada a encontrar; em seguida, permanecemos nesse estado em que nada é encontrado.

Não proceder em absoluto à análise seria tão errôneo quanto persegui-la sem cessar. Suponham um fazendeiro que tivesse perdido uma vaca. Ele pode pensar que ela tenha se desgarrado para tal ou qual lugar, ou então pensar que ela esta definitivamente perdida e dizer-se: "Não vale mesmo a pena que eu a procure". Nesse caso, talvez ele possa permanecer um momento nessa idéia, mas dúvidas logo surgirão em sua mente. Não poderá se impedir de pensar: "Sim, talvez ela esteja para sempre perdida; mas talvez ela se encontre em tal ou qual lugar?" Para que a dúvida o abandone em definitivo ele deverá colocar-se de fato à procura da vaca, vasculhar florestas, depressões, bosques onde ela poderia ter se refugiado e verificar com seus próprios olhos que ela não se encontra em lugar algum. Quando, após busca minuciosa, a vaca não foi descoberta, o fazendeiro, de retorno à sua casa, não tem mais dúvida. Sabe por experiência que o animal esta mesmo perdido. Ele não pensa mais que, a rigor, o animal poderia estar aqui ou acolá. Se, após ter se certificado muito bem que a vaca estava inencontrável, ele continuasse a procurá- la, isso não teria sentido.

É a mesma coisa com a nossa mente. Vivemos agora na idéia: "Tenho uma mente", quer dizer, na crença segundo a qual nossa mente existe enquanto coisa. O mestre nos diz: "Em realidade, a mente não existe enquanto coisa". Se o admitimos pelo simples fato que o mestre no-lo disse, é muito provável que dúvidas subsistam em nosso âmago. Pensaremos que é, decerto, exato, visto que o mestre o disse, mas não será uma certeza. Se, em contrapartida, procedemos a uma análise que nos permita verificar por nós mesmos que a mente não pode ser apreendida enquanto objeto existente, não resta mais, a partir dai, nenhuma dúvida. A crença na realidade objetiva de nossa mente apagar-se-á em razão da evidência proporcionada pela experiência direta. Perseguir a análise quando a evidência já foi obtida não teria mais sentido do que continuar a procurar a vaca quando se tornou claro que ela não esta em lugar algum.

MEDITAÇÃO – Conselhos aos Principiantes – Bokar Rinpoche




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