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Os Caminhos da Prática
Tamas Virag


Os Caminhos da Prática

Tornar consciência de que há um processo de percepção subjacente, operando continuamente por detrás de nossos pensamentos e emoções é raro entre os seres humanos. Terum simples "lampejo" disto pode abrir caminho para a prática que conduz à superação de todas as "concepções equivocadas de origem" e à suprema compreensão. Foram escassos os genios que chegaram a vislumbrar e desbravar este "veio" da mente. Explorada na obra de Carlos Castañeda, a percepção foi amplamente descrita e dominada pelo Buda. O texto a seguir inaugura uma nova "mina de ouro" palmilhando além das praias acalentadas por todas as publicações contemporâneas sobre emoções, leva o leitor a abrir...

As Portas da Percepção

"As portas da percepção estão permanentemente abertas e podemos usá-las como avenidas largas em direção ao âmago do nosso ser...
Cada percepção tem por trás a luminosidade básica da mente
e cada experiência do quotidiano está inseparável dela."

Tamas Virag

Somos todos percebedores. Vivemos num oceano de percepção. Perceber é sinônimo de estar vivo e as impressões os efeitos da percepção sobre os sentidos são um tipo de alimento subtil, porém indispensável. Se um ser for privado de percepção, morrerá imediatamente, pelo menos ao nível do mundo como o conhecemos. A percepção, por ocorrer por meio de agentes "externos", nos conecta ao todo. O mundo nos interpenetra e atravessa, e ainda assim sequer notamos a percepção, a não ser quando somos privados dela. Isso é fantástico e quase inacreditável, porque o simples olhar para outro ser ou sentir de um cheiro nos conecta ao mundo inteiro, assim como o simples olhar para uma estrela nos conecta ao espaço infinito. Quando olho para uma estrela, olho não só para ela como para mim mesmo no ato de vê-la. Porém, para a imensa maioria, perceber é tão "favas contadas" que não se atina para o que está ocorrendo. Não obstante, esta faculdade extraordinária, compartilhada por todos os seres, pode ser a chave para a compreensão do mundo e da mente.

É através da percepção que se processa todo o nosso campo de experiência. Todos os elementos da experiência passam através dos sentidos e da mente, e o ser se expressa com base no que foi previamente experienciado. Sem a percepção não haveria a noção de mundo nem de seres, pois não haveria como defini-los. Além disso, todas as nossas memórias são recordações de experiências prévias, e elas nos permitem compreender o presente. A percepção é tão fundamental e integrada à nossa atuação no mundo, tão inerente ao "funcionamento dos seres, que não nos ocorre que há um processo subjacente. Basta abrir os olhos e ver, estender o braço e sentir e tocar, reparar num som e ouvir. No entanto, ao olhar, o que estou captando? Sei mesmo o que estou vendo e, posso acreditar na informação fornecida pela visão? O fenômeno que dá origem á minha percepção tem realmente as características que julgo ter, ou é apenas a reflexão de algo que não conheço? O som que reverbera em meu ouvido, é confiável no sentido de veicular algo real? Se eu tivesse outros olhos e outros ouvi dos, veria e ouviria as mesmas coisas?

Subjacente à percepção está uma mente particularizada e focalizada que analisa o conteúdo das suas percepções.

Olhar um ser ou objeto, ouvir um som, cheirar, degustar, tocar e sentir acionam um complexo processo que remete à mente do percebedor. Esta mente tem um canal de percepção próprio que lida com os objetos da mente, fundamentalmente aqueles armazenados na memória. Graças a isso, fecho os olhos e vejo imagens mentais, lembro de sons e cheiros, etc.

À noite, quando durmo, vejo cenas em sonhos, degusto deliciosas comidas "virtuais", sinto o "frio" do vento e, no dia seguinte, esqueço tudo, mas cada experiência deixa uma marca,(por menor que seja). E assim vão se sucedendo as experiências, mais ou menos intensas, mais ou menos profundas, agradáveis, desagradáveis ou neutras, mas todas apoiadas sobre a percepção oferecida pelos sentidos e pela mente. Mais ainda, cada pensamento, sentimento ou emoção se origina de uma percepção ou combinação de percepções submetidas ao crivo da mente. Pensamentos, conceitos, julgamentos, sentimentos, emoções são as ferramentas que a mente usapara avaliar os elementos da experiência. A percepção precede o pensamento; a ela segue-se uma interpretação sobre a qual construímos nossa idéia de nós mesmos e do mundo.

A percepção, o ato de perceber e de validar o que é percebido, é um processo que independe do seu conteúdo. No entanto, a mente só repara no conteúdo e se esquece do processo, éinteressante notar que o percebedor também é um objeto de percepção. A percepção precisa se renovar a cada instante para ser algo dinâmico e vivo. Contudo, a mente tem a capacidade de, com um mínimo de "input", inferir todo o conteúdo da percepção, valendo-se para isso da memória e do pensamento. Com isso, grande parte do conteúdo da percepção não é aproveitada e nem sempre o que se "pensa" estar percebendo corresponde ao real ou ao todo. Daí que passamos a operar num universo quase fictício, um âmbito de percepção e um campo de experiência próprios de cada ser.

Para nós, o sentido da visão é predominante e dá a impressão de ser a mais objetiva. No entanto, >ela opera através da luz, um elemento dos mais sutis e que desafia interpretações. A visão éo único sentido que pode ser fechado completamente e quando os olhos se fecham ela vai para "dentro", para a tela da mente, e continua operando aí, inclusive nos sonhos. A audição ébem mais grosseira, pois opera com as vibrações no ar, mas ela nunca se fecha (estamos falando de pessoas normais); por isso ela está continuamente presente e é mais imediata. Mesmo que a pessoa esteja distraída ou dormindo, os sons ferem os seus ouvidos. Para ver algo, precisamos olhar para o objeto a fim de estabelecer "contato", o que já não acontece com a audição. Não vou me deter aqui na análise dos outros sentidos, mas estes exercem uma forte influência nos primeiros anos de vida e depois recuam para os bastidores, sem deixar de atuar. O comportamento e as atitudes das pessoas são permanentemente influenciadas pelas sensopercepções que têm em dado momento; p. ex., alguém com uma roupa justa pode apresentar irritação devido a uma experiência de desconforto vivida quando ainda um bebê. No entanto, são a visão e a audição que preponderam, basicamente, em nossas vidas e são os campos aonde a criatividade da mente se manifesta com mais força. Não há limites para a imaginação de formas visuais e para a combinação de sons. Uma forma pode nos comunicar um conhecimento que talvez nem imaginemos e o som tem o potencial de afetar áreas recônditas do nosso ser.

Um Sonho no Espelho

A percepção tem tons mais ou menos sutis que desencadeiam, através de associações, >as diferentes respostas da mente. Cada ser responde de acordo com suas percepções e a sua mente particular. A capacidade de perceber, conferida pelos sentidos, define os seus limites e delineia o alcance da sua atuação no mundo. Os bebês ao nascer, p. ex., são todos percepção. Bebês olham para tudo, reagem aos sons e são como um feixe de sensações. Depois, como o tempo, os sentidos vão sendo domesticados e ocorre uma adaptação as necessidades. A percepção mental é a única que está presente, desde a concepção. A mente é o experimentador por excelência e, para ela, as informações fornecidas pelos sentidos, pela imaginação, sonhos ou visões têm um valor equivalente. Em outras palavras, a mente pode ter outras portas além dos sentidos, mas tudo o que surgir a afeta inteiramente.

Com uma percepção limitada, a capacidade de compreensão da realidade ficará prejudicada. O ser humano parece ser o único que pode ampliar a sua percepção e com isso avançar na compreensão dos fenômenos. A ampliação do conhecimento, então, passa pela ampliação da capacidade de perceber. Além disso, a nossa velocidade de resposta depende da qualidade da nossa consciência. Quanto maior a consciência, maior a velocidade de resposta e a possibilidade de se dar uma resposta adequada. Pode-se recorrer ao uso de instrumentos científicos [mundo "objetivo"] ou a técnicas meditativas ou introspectivas [mundo "subjetivo"]. Em qualquer caso, a ampliação da percepção leva àampliação da compreensão e da consciência. No caso dos animais, por ex., a percepção destes parece ser muito mais especializada e adaptada às suas necessidades. Os animais percebem e "sabem"; que sua percepção deriva um conhecimento direto que dita suas ações ou, posto melhor, eles já tem respostas internalizadas. Mas, assim como a percepção, é um conhecimento especializado e limitado. Entretanto, este "conhecimento silencioso", independente de pensamentos, lhes permite ser extremamente eficientes. Quem quer que olhe dentro dos olhos de um predador saberá o que é determinação, eficiência, a corporificação perfeita de um determinado conhecimento, e sentirá a presença de algo inefável atrás daquele olhar.

Os sábios nos dizem que os olhos nos conectam diretamente à nossa essência, à raiz do nosso ser. Junto desta está a mente que, primeiro, possibilita que haja percepção e, depois, que a informação seja processada. O ato de perceber está tão próximo da base do nosso ser que se entendermos como percebemos, entenderemos a nós mesmos (não me refiro a processos fisiológicos e/ou biofísicos). A análise do conteúdo nos leva para "fora", enquanto que a análise do processo leva para dentro. O substrato básico é a mente. Para haver percepção é necessário que haja um percebedor e um "local" onde a percepção ocorra. Cada ser tem uma mente própria que determina o que pode perceber e como irá perceber. Por exemplo,um pássaro percebe como tal porque tem um corpo de pássaro e dentro de si a "intenção" de ser pássaro. Tudo isso irá determinar suas ações. Se ele quiser perceber e agir como um leão, só poderá fazê-lo se trocar de "intenção" e de corpo. Da mesma forma, nós seres humanos temos a "intenção" de ser e perceber como tais mas, além disso, manipulamos a nossa percepção de modo a que se adapte aos nossos pensamentos e a nossa visão de mundo. Até mesmo um louco, que vê "coisas" na tela da sua mente, está preso a um quadro de referências previamente estabelecido, que conduz a sua percepção.

O fato de existir um percebedor separado da percepção revela uma dicotomia básica que está na raiz do mundo fenomênico e de toda a diferenciação: a noção de uma entidade individual que experiencia os fenômenos, a noção do "eu" e de "não-eu" ou objetos. Para ilustrar, vamos supor que eu esteja sonhando, e que no sonho me olho no espelho. Como é que posso ter certeza de que aquilo que vi no espelho sou eu mesmo? Numa ausência da noção de si mesmo, não se vai parar para aferir a percepção e qualquer imagem que aparecer será interpretada como "eu" nem discriminada como "não-eu". Aquela imagem não vai criar separatividade e, sem qualquer conflito, continuarei a atuar dentro do sonho. Transportando isso para o cotidiano, se olhar para o mundo e para os outros seres sem estar identificado com um "eu", o que for que veja presumirei que sou eu mesmo, ou não separado de mim. A imagem que penetra meus olhos não pode ser outra coisa que eu mesmo, porque sou eu que estou vendo e interpretando aquilo que vejo. Eu sou o espelho que reflete aquela imagem. Ou, dito de outra forma, a idéia que faço a partir do conteúdo da minha percepção (além da própria percepção em si) repousa inteiramente sobre a minha mente.

A "superfície" de ver é determinada pelo foco da mente. Se a colocamos fora de nós, vemos um mundo exterior. Se a pomos ao nível das pupilas ou da retina, vemos luzes e formas passageiras. Se a situarmos ao nível da mente, vemos a nós mesmos, refletindo a imagem de volta e dizendo "é uma flor, é uma cadeira", etc. Com a noção de "eu" prevalece a dicotomia percebedor/objeto percebido. Sem a noção de "eu", diremos que a "percepção-flor" ou a "percepção-cadeira" se manifestam. Está ocorrendo um processo certo que "algo lá fora afeta os nossos sentidos", há a luz e a percepção de luz. (Enfatizo a visão, mas a análise vale para todos os outros sentidos). No entanto, quem dá o significado é a mente e quem separa o percebedor do objeto é a idéia de existir uma separação. A dicotomia básica percebedor/objeto é, contudo, uma falácia, porque há um agente que os une indissoluvelmente numa intrincada teia. Externamente, nós a chamamos de luz. Internamente, de luminosidade básica da mente, ou consciência pura. As noções de sujeito/objeto, espaço/aparências, claro/ escuro são modificações desta consciência.

A percepção e a consciência de ver ocorrem simultaneamente. A manifestação de uma forma e a consciência de que há uma forma se manifestando através da visão desencadeiam o processo de identificação e avaliação do conteúdo. O mesmo se dá com os outros sentidos e, neste processo, construímos o mundo; os pensamentos, conceitos, julgamentos, comparações vão cristalizando as idéias do "eu", do "não-eu" (o mundo) e da separatividade. No momento em que fica estabelecido um eu "aqui" e um mundo "lá fora", cria-se o círculo vicioso que reforça a dicotomia cada vez mais, chegando ao extremo de atribuir mais realidade ao mundo "exterior" do que ao "interior". Este é o nosso dilema básico, mas sem outra das qualidades básicas da mente, a capacidade de conhecer, não haveria nada a discutir nem a fazer. Podemos descobrir como tudo isso opera e achar meios de adquirir mais liberdade, ampliar nossa percepção e mudar nossas respostas.

O "Recuo" da Consciência

Atualmente, estamos confinados a determinados "nichos" de percepção. Aprendemos a perceber de certa maneira e, a partir daí reduzimos o âmbito da nossa percepção, deixando todo o resto de lado. Fizemos um inventário dos itens do nosso campo de percepção e criamos o "círculo do conhecido". Passamos a atribuir cada vez mais "realidade" a este nosso "nicho" e esquecemos que fomos nós que construímos a cerca para nos sentirmos mais seguros. Estreitamos a nossa vi são de mundo, mas o que está fora do cercado não deixou de existir; apenas não o percebemos mais. Existe toda uma vastidão "invisível" que está lá e continua exercendo sua influência sem que a notemos.

Estamos deslumbrados com as luzes do mundo. A nossa "superfície" de ver está no mundo exterior e estamos identificados com os seus conteúdos. E se fecharmos os olhos e fizermos um mergulho interior, o mundo continuará lá? Certamente que sim, mesmo porque ele tem "memória", nós o conservamos em nossa mente. Mas, se olharmos cuidadosamente para dentro e fizermos uma análise exaustiva, talvez ao "voltar" o mundo já não esteja tão sólido como antes.

Ao olhar para fora e enxergar "objetos", ocorre uma espécie de transferência. Temos um processo interno, com suas características e premissas, que "tranfere" suas conclusões ao que supostamente está fora. A crença na solidez dos objetos é uma delas; outra é a aceitação de que, o que é visto, o que aparece aos olhos, é algo inerente ao objeto. Contudo, o que é percebido é totalmente subjetivo, pois não temos provas da uniformidade da percepção de cada percebedor (as pessoas podem concordar que viram uma pêra, por exemplo, mas como cada uma percebeu aquela pêra, com suas nuances de textura, cor, etc, é algo individual), nem podemos afirmar que o que é visto corresponde de fato ao de que julgamos que a "pêra" é uma pêra mesmo: pode ser uma maçã deformada; pode ser um plástico; pode ser uma ilusão provocada por sobreposição de imagens; um holograma, e assim por diante. É claro que temos meios de aferir o objeto, mas estes meios estarão simplesmente aferindo a idéia que temos de como o objeto deve ser; idéia formada e internalizada por percepções e julgamentos prévios. Estas diferenças de percepção são ainda mais acentuadas entre as espécies, pois um ser humano, além de perceber o objeto, atribui significado a ele, enquanto que um inseto, por exemplo, perceberia a mesma "pêra" de forma completamente diferente.

A consciência, ao recuar desta fascinação externa, pode reparar que existe algo semelhante a um fluxo. A percepção da visão apresenta uma forma. O meio pelo qual se estabelece o "contato" é a luz. Esta forma

é avaliada e interpretada. A interpretação gera uma resposta subjetiva e/ou objetiva. A cena vista contendo o objeto é algo como uma tela da qual se isolou um dos componentes. Mas para que um item possa ser isolado e analisado a informação precisa percorrer um caminho da cena para o olho e do olho para o interpretador da cena e do elemento isolado. Então, >o olho é apenas o meio pelo qual a percepção da visão, >ou a tomada de consciência da existência de uma forma visível se processa. A luz é um fator cooperante. Depois de "passar" pelo olho, a forma encontra algo, um "local" onde ocorre a visão. A consciência que analisa o conteúdo, aquilo que se apresenta á visão, >é a consciência da visão. Em outras palavras, a impressão causada pela luz "viaja" para dentro e encontra uma barreira ou destinação onde é "dissecada". Através de um processo que envolve pensamento, memória, conceitos, julgamentos, comparação, hábitos anteriores de interpretar, se determina o que foi visto. (Repito que a análise vale para os outros sentidos).

Mas, qual é o "pano-de-fundo" contra o qual ocorre tudo isto? Não pode ser outra coisa senão a mente, onde se podem identificar vários níveis ou camadas. Se examinarmos bem, constataremos que, para além das camadas superciais, tudo que é percebido pelos sentidos e pela mente ocorre contra um fundo escuro, uma escuridão translúcida que possibilita que se distingüa tudo com clareza.

É um espaço vasto e desobstruído, um mar infinito onde "pipocam" todas as aparências, que permite e acomoda tudo que é possível de ser percebido. Ele fica nas profundezas do nosso ser, intocado por qualquer coisa que venha da "superfície", e só pode ser alcançado quando se atravessa a névoa espessados pensamentos e da nossa idéia de "eu", com seus pressupostos e "a-prioris". Para chegar a ele, é preciso deter o tagarelar incessante da mente e manter uma atitude de observador desapegado que não pára no meio do caminho. Esta escuridão infinita é a base da mente comum, ordinária, cotidiana. Ela representa uma espécie de "barreira de potencial" que serve de anteparo a, e oculta, a mente-essência, ou o que no pensamento budista se chama de a verdadeira natureza da mente, dotada das características naturais de luminosidade (consciência), de capacidade de conhecer e de potencial para manifestar formas ou, presença espontânea.

A "barreira de potencial" surge da discriminação fundamental de não se reconhecer a luminosidade básica como inerente ao nosso ser, ou como sendo nossa verdadeira natureza. Isto dá origem ao fundo escuro onde todos os elementos da experiência irão se manifestar. É a luminosidade básica que permite que haja percepção de formas e que se forme conceitos, mas nós esquecemos disso e operamos ao nível da mente ordinária. Contudo, todas as experiências são inseparáveis da verdadeira natureza da mente, nós é que não nos damos conta disso. A mente-essência manifesta espontàneamente ou, reflete desobstruidamente todos os fenômenos, tudo que possa ser concebido. Mas nós, a partir do conceito de "eu" e "outros" (ou, "não-eu") criamos uma segunda separação, uma segunda dicotomia, a de considerar que as experiências e o experimentador estão separados. Passam a existir o percebedor (mente comum) e os fenômenos (formas, movimentos, tempo, etc.). Com este "pano-de-fundo", o ser se enreda nos elementos da experiência, se identifica com as percepções, vai se fechando no mundo criado por seus pensamentos e conceitos e, com isso, perde a sua liberdade básica e a possibilidade de retorno à fonte. Este retorno requer a dissolução da névoa dos pensamentos e da idéia do "eu" para que se adquira desapego, espontaneidade e fluidez de percepção.

A "Névoa" do Não-Saber

A "névoa" do desconhecimento se origina da idéia do "eu" e dos hábitos de pensar que a sustentam. O "eu" é sempre tomado como ponto de referência e está tão profundamente arraigado, como conceito, que não é questionado. Ele tem muitas variações sutis e opera diferentemente de acordo com as circuntâncias, representando vários papéis de acordo com as suas conveniências. No entanto, é uma entidade fictícia cuja solidez é apenas aparente, pois se sustenta em pensamentos e estados de ânimo sempre mutantes e instáveis. Como a mente e a consciência apresentam um "ponto focal" para as experiências, presume-se que há algo permanente aí, mas, na verdade, é um processo que se renova a cada instante, gerando uma resposta a partir das percepções. As respostas básicas são internas, na forma de emoções que o pensamento budista define como os agentes responsáveis pela nossa atuação no mundo. Para o nosso estudo, basta dizer que as emoções se sustentam nos pensamentos, conceitos e julgamentos feitos ao nível da mente comum, ordinária, originados das percepções que se manifestam contra o fundo escuro desta mente. Então, para atravessar a névoa do não-saber é imperativo interromper o fluxo incessante dos pensamentos, desde os mais grosseiros até os mais sutis.

Foi através do pensamento discriminativo que perdemos contato com a verdadeira natureza da mente, naturalmente luminosa, cognoscente e auto-manifestante, presente atrás daquela "barreira de potencial". A mente-essência é, por natureza, pura e desobstruída, dotada de consciência e de conhecimento. Como mencionado antes, a primeira discriminação foi o não-reconhecimento desta natureza e, a partir daí, perdemos de vista a luminosidade da mente presente em nosso ser, caímos no não-saber e nos enredamos em teias e armaduras que nos tolhem.

Esta separatividade básica dá origem ao surgimento da diferenciação e de todas as discriminações. A partir do uniforme (a natureza básica da mente) cria-se o múltiplo (todos os fenômenos) que se manifesta espontâneamente. Contra o fundo escuro aparece o mundo inteiro, com seus objetos e seres, que se vão diferenciando e cristalizando, cada um dotado de traços únicos que os distinguem dos demais. A percepção é essencial neste processo e, junto com a mente, abre a tela ou janela da mente. A discriminação é mental, e a mente brinca consigo mesma. As manifestações surgem espontâneamente e uma manifestação "olha" para outra e diz "você é diferente de mim, >você e eu estamos separados". Duas árvores, com raízes no mesmo solo, dizem "eu sou figueira, você é macieira", esquecendo-se que o mesmo solo as nutre. O pensamento discriminativo e analítico vai classificando, rotulando e esmiuçando tudo freneticamente, na tentativa de esgotar todos os itens do mundo. Mas isso é impossível, pois a capacidade da mente de manifestar é infinita.

Naturalmente, detectar o surgimento do pensamento discriminativo no seu nascedouro ou no instante em que está ocorrendo não é uma tarefa simples. Esta tarefa exige disciplina, concentração e velocidade (maior consciência), envolvendo as técnicas tradicionais de meditação e outras que promovem a ampliação da consciência. Com tempo e dedicação é possível ir voltando nas camadas e dessa maneira ir revelando o que antes estava obscurecido pela névoa. Antes de mais nada, é necessário admitir que não há um caráter final na nossa percepção. A informação proporcionada pelos sentidos não é definitiva; o conteúdo da percepção não pode ser simplesmente rotulada de "real’ ou "ilusório", "possível" ou "impossível", "feio" ou "bonito", e assim por diante. O fluxo dos pensamentos que sustenta estes julgamentos possui padrões próprios, que precisam ser postos a nu. Em meio a conceitos e hábitos de pensar repetidos e internalizados não sobra lugar para o novo. Cria-se uma fixidez que solidifica a idéia da separatividade. Os julgamentos têm como referência o suposto "eu", emoldurado por uma personalidade com características definidas e respostas prontas. O conceito de "eu" faz desaparecer o cenário de fundo que serve de tela para a percepção dos fenômenos. O "eu", esta entidade individual que presencia e experiencia os fenômenos, reflete sobre eles e conclui que há um percebedor separado do percebido, um experimentador separado do experimentado, o sonhador do sonhado. Por trás disso tudo, a dicotomia básica do ser.

A crença no caráter final da percepção vai criando mundos fictícios, "realidades virtuais" nas quais mergulhamos e com as quais nos identificamos cada vez mais. A ciência, na sua ânsia de fazer novas descobertas ou de confirmar teorias está, muitas vezes, simplesmente dando "realidade" a fluxos de pensamentos repetidos e recorrentes, estabelecidos previamente. O surgimento do novo e de instantes de criatividade dependem de se conseguir introduzir descontinuidades no fluxo estabelecido. Sem um intervalo, o resultado reflete apenas a corrente dos pensamentos, e nada de novo pode surgir. Quando o fluxo se alastra no seio de um povo ou raça, adquire características próprias e maior ímpeto. Quanto mais pessoas compartilham da mesma idéia ou fluxo, mas "real" ela se torna. Se este fluxo gerar a "intenção" de que uma idéia ou conceito exista, a ciência achará um meio de encontrá-la e de criá-la dentro da sua suposta realidade. (Veja Nota do Editor) O mesmo raciocínio vale para outras áreas, como a área mística ou a da magia. Quanto mais pessoas crêem em algo, mais esta idéia irá afetar a vida das pessoas e, portanto, será mais "real". O espelho da mente permite a criação de qualquer sonho e, se o sonhador esquecer que está sonhando, o sonho se transforma em realidade.

Olhando, Estupefato, desde o Vazio

A tela do vazio é o "pano-de-fundo" para todas as experiências. Ela permite e acomoda tudo que surge como aparências manifestadas pela mente. Qualquer coisa manifestada é intrinsecamente pura e carrega consigo um determinado conhecimento. Nós, através da atividade dicriminadora da mente, já julgamos e classificamos tudo o que surgiu na tela do vazio, de acordo com critérios próprios, como "bom" ou "mau", "útil" ou "inútil", "meu" ou "teu". Esta atividade é espontânea e incessante e permeia toda nossa existência.

Entretanto, tudo provem daquele vazio e é não-contaminado por natureza. Tudo que se manifesta à mente é perfeito na sua condição de comunicar conhecimento; nós é que estamos obscurecidos e não conseguimos distinguir as qualidades intrínsecas de cada experiência, aparência ou percepção. Em outras palavras, a nossa percepção nos põe em contato com as qualidades inerentes da mente-essência. (Aqui cabe uma observação: a mente que observa os fenômenos é distinta da mente verdadeira no sentido da primeira ser uma redução localizada e obscurecida da segunda. É impossível, num artigo como esse, resumir o que expõe os extensos tratados budistas sobre o tema. Para nós, nesse estudo o importante é tentar compreender como podemos retornar à fonte, mesmo que de uma forma superficial). Se pudermos desapegar-nos do conteúdo das percepções e vislumbrar o que está por trás, ou melhor, do que a percepção vem "encharcada" por natureza, >poderemos dar início a uma transformação.

Então, para ter um vislumbre da nossa verdadeira natureza, precisamos cessar a atividade discriminativa da mente. Esta atividade está intimamente ligada aos pensamentos, de modo que precisamos interromper o seu fluxo e alcançar o silêncio interior. A medida que o silêncio interior se aprofunda, teremos mais e mais acesso ao "conhecimento silencioso". Este conhecimento nos revelará o que precisamos saber e fazer. As portas da percepção estão permanentemente abertas e podemos usá-las como avenidas largas em direção ao âmago do nosso ser. Até agora as temos usado para nos dirigir para fora; a via para dentro está lá, esperando para ser usada. A consciência pode percorrê-la para "recuar" deste ofuscamento com os conteúdos da percepção e vislumbrar as qualidades da mente-essência. O nosso ser se revela na nossa experiência e, se conseguirmos reconhecer nela as qualidades básicas da mente, alcançaremos a compreensão.

A verdadeira natureza da mente e sua luminosidade básica é inseparável da experiência (percepções) do cotidiano. A luminosidade da mente permeia e interpenetra cada momento de nossas vidas.

Além disso, cada pensamento brota de uma sabedoria inerente da mente. Cada discriminação de fenômeno não passa de um "entretenimento" engendrado pela mente para nos distrair, algo como jogar um pouco de tinta numa tela mágica inefável que logo se transforma. Nós recriamos o mundo constantemente quando repetimos os hábitos internalizados que envolvem percepção e pensamento. Não podemos deixar de perceber, nem de pensar (ao menos não ao nível da realidade cotidiana), mas podemos deixar de acreditar tanto neste jogo e de atribuir tanta realidade ao conteúdo da nossa experiência. Uma maneira de fazer isso é, a partir da percepção, ir "voltando" e dissipar as camadas de névoa até vislumbrar a luminosidade básica da mente.

O "truque" básico consiste em tentar reconhecer esta luminosidade como inseparável de cada percepção, e cada pensamento (idéia, conceito, julgamento, etc.) como inseparável desta sabedoria inerente. Podemos aceitar cada experiência, agradável ou dolorosa, construtiva ou não, como uma manifestação pura da mente-essência, e que tem algo para nos comunicar. "A luz que aparece à percepção da visão é da mesma natureza da luminosidade básica da mente", diz um texto budista. Então, quando vejo a luz, esta luz é a mesma luz da minha mente. Em cada cena vista (em cada som ouvido, etc.) está presente a luminosidade, a capacidade de conhecer, o potencial de manifestar a mente. Na verdade eu posso ver, ouvir, sentir, imaginar, sonhar porque a Luminosidade da mente permeia todas estas experiências.

Se a consciência se dirige para fora, ela cria o mundo; se ela se dirige para dentro, revela esta luminosidade. A visão está intimamente conectada ao que nos textos budistas se chama de "repositório de consciência", situado no peito. Talvez por isso a maioria das técnicas que buscam revelar essa essência sejam visuais. No entanto, ao se praticar o reconhecimento, reforça-se o elo com a essência e vai se dissipando a névoa do não-saber. Se tudo que vejo é inseparável da luminosidade da mente, cessa a tensão, a ansiedade, e a separatividade. A observação torna-se desapegada e o silêncio interior se transforma em apreciação e alegria. Repito mais uma vez:( tudo o que foi dito para a visão vale para os demais sentidos, inclusive para as faculdades da mente). Se a pessoa for capaz de sustentar o reconhecimento por longos períodos, então, à noite, ao dormir, conseguirá reconhecer a luminosidade dentro dos sonhos e, na hora da morte, a luminosidade do pós-morte. Desta forma, é possível praticar sempre, em todos os momentos. Reconhecer a luminosidade da mente, ou a mais pura consciência, em todas as experiências, se chama de alcançar a "visão". Sustentar este reconhecimento é "meditação". Assim, qualquer coisa que afetar os nossos sentidos poderá proporcionar um meio de prática, se conseguirmos reconhecer a sua natureza pura (ou, sua inseparatividade da mente-essência). Se eu estou aqui, agora, percebendo objetos formas, sons, etc. posso usar isso para olhar para a minha mente verdadeira. (não como objeto)

Como a percepção vai desde a concepção até a morte, não se interrompendo nunca, basta se lembar de praticar. Esta prática inicia pela não-identificação com os conteúdos da percepção nem com os processos que ela desencadeia. Se identificar é ficar na superfície e perder de vista as profundezas. Ao se atentar de forma continua para a luminosidade da mente, ou tomando-se a mente-essência como caminho, penetra-se na "eternidade do agora". Para a mente verdadeira, inexiste o tempo, que só tem sentido na sucessão de experiências. Vislumbrando o imutável, só existe o momento presente.

A continuidade da mente é sem início nem fim; a mente esteve sempre presente e guarda a lembrança de todas as experiências. Através da prática da "visão" afrouxa-se a noção de "concretude" e adquire-se "fluidez" para atravessar as camadas da ilusão. Com o tempo, a "visão interior" se fortalece, o conceito de "eu" é superado e se alcança a maior das liberdades: aquiescer aos desígnios do infinito.


Tamas Virag é praticante budista.

Notas do Autor:

1- Existem exercícios de percepção, principalmente visuais, que auxiliam na tarefa de atravessar as camadas da ilusão e remetem à luminosidade básica da mente. Entretanto, são consideradas práticas avançadas que requerem preparação prévia e, por isso, me abstive de apresentá-las aqui. E recomendável contar com um mestre qualificado e receber instrução adequada. Meu intuito, com este artigo, foi tentar devolver a percepção a importância que esta tem. Muitas práticas esotéricas repousam sobre a manipulação da percepção e, na linhagem Nyingma do Budismo Tibetano são consideradas secretas, só transmitidas oralmente.

2- Utilizei neste trabalho muito da linguagem de Carlos Castaneda, embora a maioria dos conceitos seja de origem budista. No entanto, Castaneda aborda a questão da percepção de forma extensiva em sua obra, o que para ele é vital. Chega a chamar a si mesmo e a seus companheiros de "navegadores da consciência" e expressa o desejo de explorar as "infinitas possibilidades da percepção’. Liberdade, para ele, é a de perceber (e, com isso, adquirir conhecimento). O Budismo vai um passo adiante ao dizer que todas as percepçôes são contaminadas, condicionadas e, portanto, é necessário ir além delas.

3- Consulte também, deste autor, "Quatro Passos para o Desconhecido" (Bodigaya n0 4) e "O Circulo Mágico do Tempo" (Bodigaya n0 6). Além disso, recomendo a leitura de textos budistas sobre a verdadeira natureza da mente e, em especial, do "Surangama Sutra", pertencente à coleção de textos Mahayana. E interessante, também, adquirir uma noção correta do conceito de "Vacuidade", como exposto pelos mestres Vajrayana (e.g. "A Porta Aberta para a Vacuidade" de Thrangu Rinpoche, Ed. Bodigaya).

Nota do Editor:

A Ciência afirma que os elétrons, por exemplo, são objetos reais, existentes de fato. Porém, não consegue explicar como um mesmo objeto (um elétron) pode se comportar tão paradoxalmente, ou seja, ás vezes é matéria, como uma bola, às vezes é onda, com características diversas, com comprimento de onda e freqüência. A ciência se pergunta como um mesmo objeto pode "ser" dois entes tão diferentes. O paradoxo se dissolve no "recuo" do fenômeno á mente do cientista, que ora cria um equipamento experimental para encontrar uma partícula e ora cria um equipamento experimental preparado para encontrar uma onda. Logo, o "elétron" é, por assim dizer, uma criação, um subproduto da mente do cientista que gerou a "intenção" de encontrá-lo com suas teorias e pressupostos prévios. No máximo, segundo Niels Bohr, um elétron seria um "objeto lógico".




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